domingo, 5 de julho de 2015

brasil dividido

Dilma x Aécio: A eleição que divide o Brasil

A disputa presidencial é a mais virulenta dos últimos 25 anos. Os dois candidatos deveriam abandonar as agressões mútuas e lembrar que há um país a governar

FLÁVIA TAVARES, GUILHERME EVELIN E MARCELO BORTOLOTI COM ALBERTO BOMBIG, LEOPOLDO MATEUS, RODRIGO TURRER, RUAN DE SOUSA GABRIEL E TIAGO MALI
21/10/2014 15h04
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A eleição que divide o Brasil (Foto: Adriana Spaca/Brazil Photo Press/Estadão  Conteúdo e Nelson Antoine/Frame/Folhapress)
É uma mudança histórica. O país irá às urnas no domingo, dia 26 de outubro, cindido ao meio entre eleitores da presidente Dilma Rousseff (PT) e do senador Aécio Neves (PSDB), na disputa mais virulenta dos últimos 25 anos. Nunca houve situação igual. Em 1989, na primeira eleição presidencial depois da redemocratização, a disputa entre Fernando Collor e Luiz Inácio Lula da Silva foi igualmente acirrada. Mas não havia a divisão geográfica, entre Norte e Sul, nem a socioeconômica, entre mais ricos e mais pobres, como há agora. Como agravante, os dois primeiros debates do segundo turno, na semana passada, entre Dilma e Aécio, descambaram para o território do vale-tudo, da violência verbal e da desqualificação do adversário, de uma forma como nunca fora registrada nas disputas presidenciais anteriores entre petistas e tucanos. No primeiro debate, na TV Bandeirantes, ao se referir ao escândalo de corrupção na Petrobras, Aécio falou em “mar de lama”, uma evocação, talvez involuntária, mas funesta, das denúncias de Carlos Lacerda que levaram ao suicídio do presidente Getúlio Vargas, em 1954. No debate do SBT, Dilma insinuou que Aécio estava “drogado” ou “bêbado”, ao mencionar um episódio de 2011, em que, detido numa blitz de trânsito no Rio de Janeiro, ele se recusou a se submeter ao bafômetro.
O conflito é a essência da prática política. Numa democracia, a disputa pelo poder entre grupos concorrentes passa pelo debate de ideias antagônicas sobre como governar melhor. Mas tem também uma dimensão moral, que se resume na seguinte ideia: um lado está certo, o outro está errado. Essa dimensão moral da política é menos permeada pela razão que pelos sentimentos. Eles se manifestam, muitas vezes, como indignação, raiva e até ódio. Somados, viram intolerância. Quando a intolerância subjuga o argumento, resta apenas o bate-boca. Quando dois candidatos à Presidência da República se entregam a um bate-boca em que a disputa eleitoral vira uma competição para ver quem desqualifica mais o outro, há dois problemas. Primeiro, os líderes políticos deixam de exercer seu papel educador. Segundo, sobram como lastro da disputa política as mágoas e os ressentimentos. Eles explodiram como nunca nesta eleição. Têm desfeito sociedades, separado amigos e dividido famílias.
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O advogado Rodrigo Forlani, de 32 anos, passou boa parte da infância e adolescência em São Paulo com a prima de primeiro grau Fernanda. Os dois têm apenas três anos de diferença de idade. Suas famílias chegaram a morar no mesmo prédio, no bairro da Aclimação, em São Paulo, período em que a cumplicidade entre eles resvalava naquela inconsequência deliciosa da meninice. “Ela cabulava as aulas de inglês e se escondia na minha casa”, diz Rodrigo. Ao rememorar a relação com a prima, a nostalgia logo cede lugar à mágoa. “Como é que essa pessoa faz isso comigo hoje?” Rodrigo se refere à briga que tiveram dias antes do primeiro turno da eleição. Bastou ambos terem diferentes posições políticas. E, sobretudo, não saberem lidar com essa diferença.
 
rodrigo forlani (Foto: Rogério Cassimiro/ÉPOCA)
RODRIGO FORLANI - VOTA EM DILMA
32 anos, advogado
O advogado Rodrigo Forlani, de São Paulo, brigou com a prima Fernanda, que mora em Londres, depois de ter declarado preferência por Dilma. Os dois cresceram juntos. Rodrigo diz que, por causa da discussão, cogita não ir, neste ano, ao jantar de Natal da família, anti-PT. Ele diz sentir o mesmo isolamento de quando assumiu ser homossexual. “Votar no PT é a nova aberração do momento. Pelo menos em São Paulo é assim”, diz ele
Depois de concluir a faculdade, Fernanda se mudou para Londres, onde construiu sua família e vive até hoje. Os dois continuaram a se falar pelas redes sociais e se encontravam todo ano nas festas de Natal e Réveillon. Neste Natal, deverá ser diferente. “Considero seriamente não participar do Natal em família desta vez”, diz Rodrigo. A briga começou quando Rodrigo defendeu uma conhecida de ambos no Facebook. A garota declarara voto em Dilma Rousseff. Justificara sua escolha com notícias sobre a redução da miséria e o aumento da distribuição de renda nos governos petistas. Foi achincalhada nos comentários. Rodrigo interveio, e Fernanda não se conteve. Chamou Rodrigo para uma conversa virtual privada.
“Não acredito que você vai votar no PT, achando que será a solução da desigualdade social. Sério, primo, você é inteligente demais para fazer isso. Sorry, mas seus comentários são medíocres”, disse Fernanda. Rodrigo respondeu que a prima ofendia sua inteligência e sua liberdade de fazer escolhas. “Hitler também conseguiu ‘brain wash a lot of blind people’”, respondeu Fernanda. (“Hitler também conseguiu fazer lavagem cerebral em muitas pessoas cegas”, em tradução livre). Por fim, Fernanda ainda sugeriu que talvez Rodrigo nem sequer fosse da família Forlani. Ele se indignou. “É um absurdo questionar até minha origem... A pior consequência é que o Natal está chegando, e não sei como será. Todo mundo vai se doer por causa dessa briga, vai tomar o partido dela. Ninguém entende minha posição”, diz Rodrigo. A família dele vota em Aécio – ou melhor, quer se ver livre de Dilma.
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Depois do episódio com a prima, Rodrigo escreveu um pequeno texto também no Facebook no dia do primeiro turno. Levou dois dias ruminando o ocorrido e, então, desabafou publicamente. “Uma coisa é debater de forma saudável e produtiva, pois demonstra o interesse de todos pela política. Outra coisa é impor que todos pensem como você, usando argumentos baixos, com agressões gratuitas e desproporcionais. Isso tem nome: intolerância política.” Ao tentar destrinchar o que teme que aconteça no fim do ano, Rodrigo só encontrou um termo de comparação. “É como aconteceu anos atrás, quando minha família descobriu que sou gay. Votar no PT é a nova aberração do momento. Pelo menos, aqui em São Paulo é assim.” Rodrigo lembra que assumiu sua homossexualidade para os parentes quando tinha 19 anos. Sua mãe ficou um ano sem falar com ele. Num encontro familiar em que mãe e filho ainda estavam rompidos, os demais familiares demonstravam dó. “Eles sentiam pena de mim. Hoje, sou uma voz dissonante. Estou sozinho. É um sentimento de solidão, como foi naquela ocasião”, diz Rodrigo. Procurada por ÉPOCA, Fernanda ficou indignada ao saber que o primo relatara a discussão que tiveram. “É um absurdo ele expor nossas divergências políticas dessa maneira. Ele se diz ofendido, talvez com razão, pela forma como coloquei minha opinião, mas também fui ofendida e chamada de classista com ‘papo de elite’”, disse Fernanda, por e-mail.
 
As divisões do Brasil  (Foto: Época)

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